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domingo, 12 de junho de 2011

Sobre o artigo: Estudo sobre os efeitos do consumo de frutose em humanos

Olá galera! Hoje vou fazer um post um pouquinho diferente, baseado em um artigo científico, publicado em maio de 2009, que investigou os efeitos do consumo de frutose, como substituinte da glucose, em humanos. A idéia é mostrar os resultados que o estudo obteve, sem esquecer de relacionar os resultados obtidos com o tema do nosso blog, a bioquímica do diabetes. Vamos lá?

Como foi realizado o estudo?

O estudo foi realizado em três etapas. Inicialmente, um grupo de pessoas, obesas ou acima do peso, foi submetido, durante duas semanas, a uma dieta energeticamente balanceada, sendo 55% de seu valor calórico diário proveniente de carboidratos complexos. Nessa primeira parte os indivíduos residiram no hospital/centro de pesquisa, e o objetivo era igualar as condições nutricionais dos mesmos. Em seguida, os mesmos indivíduos foram separados em dois grupos, de forma que um deles passou 8 semanas consumindo uma bebida preparada pelo hospital, adoçada com glucose, e o outro grupo uma bebida semelhante, porém adoçada com frutose. Essas bebidas correspondiam a 25% das necessidades diárias de cada paciente, e associada a elas cada paciente comia o que desejasse, à vontade. Essa segunda fase os indivíduos passaram em suas residências, tendo visitado o hospital apenas uma vez para realizar alguns exames. Por fim, os pacientes voltaram para o hospital para mais duas semanas de internação e para as avaliações finais. Continuaram consumindo as bebidas nas mesmas quantidades, porém agora associadas a uma dieta regulada novamente.

Quais os resultados observados?

Apesar de ambos os grupos haverem apresentado ganhos de peso similares, outros parâmetros se encontravam muito diversos. Entre eles: a quantidade de volume adiposo visceral estava significativamente aumentado apenas no grupo consumidor de frutose, assim como a taxa de lipogênese hepática (produção de gordura a partir da ingestão de carboidratos) e os valores de colesterol e triglicérides sanguíneos, entre outras variações no metabolismo lipídico. Além disso, e agora falando de dados mais relacionados ao tema do nosso blog, as concentrações plasmáticas de glucose sanguínea e insulina aumentaram, enquanto que a sensibilidade à insulina e a tolerância à glucose diminuíram, tudo isso durante a ingestão de frutose, mas não de glucose. Os dados detalhados estão na tabela abaixo, retirada do artigo.


Discussão

Quais são, então, as diferenças provocadas no metabolismo pela ingestão prolongada de frutose, em relação à de glucose, responsáveis por tais resultados? O artigo explica que o metabolismo da frutose, em contraste ao metabolismo da glucose, é independente da regulação da fosfofrutose quinase; sendo assim, a absorção da frutose pelo fígado e seu metabolismo como substrato da lipogênese não são limitados pelo estado de energia (ATP citosólico e níveis de citrato). Além disso, a frutose pode ativar a proteína ligante do elemento regulatório de esteróis 1, de forma independente da insulina, proteína esta que ativa genes envolvidos na lipogênese.
O artigo propõe que o aumento do volume hepático de lipídios, resultante da lipogênese induzida por frutose, leva à resistência hepática à insulina, possivelmente pelo aumento dos níveis de diacilglicerol. O DAG é um ativador conhecido da enzima "novel" PKC (proteína quinase C), e aumentos de ambos diacilglicerol e atividade da "novel" PKC estão associados à resistência à insulina induzida por lipídios.

A frutose e a saúde pública

Observando os resultados do estudo, conclui-se que o elevado consumo de frutose, açúcar presente em diversas bebidas e refeições industrializadas, por exemplo, pode trazer sérios danos à saúde, tanto individual quanto de uma sociedade. Nos Estados Unidos, por exemplo, é bastante comum encontrar bebidas e alimentos adoçados com sucrose (50% glucose e 50% frutose) ou HFCS (high-fructose corn syrup), geralmente constituído de 45-58% de glucose 42-55% de frutose, e a verdade é que não se sabe ao certo quais os limites saudáveis de ingestão desses produtos. Os altos níveis de obesidade entre a população de muitos países, onde os alimentos industrializados dominam, podem estar relacionados ao consumo elevado de frutose.

Com a diabetes não é diferente. Se em um estudo que durou apenas 10 semanas indivíduos que consumiram altas quantidades (25% das necessidades diárias) de frutose tiveram sua glicemia e insulinemia elevadas, assim como a tolerância à glucose e a sensibilidade à insulina diminuídas, que dirá de uma ingestão prolongada, não raro durante anos, a taxas semelhantes ou mesmo um pouco menores (acredita-se que a média de consumo de um cidadão americano é de 15.8% de suas necessidades energéticas)? A verdade é que uma dieta dessa natureza constitui inegável fator de risco para o desenvolvimento de diabetes tipo 2, doença de alto grau de morbidade e mortalidade em todo o mundo.

Para ler o artigo original, acesse o link: http://www.jci.org/articles/view/37385/pdf

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